segunda-feira, julho 31

Os terroristas

Aprendi que os atentados terroristas são caracterizados, principalmente, pelo grande número de civis mortos, pela imprevisibilidade (eles podem ocorrer em Nova York, Londres, Madri ou no vilarejo de Qana) e pela espetacularização proporcionada pela mídia. Assim ocorreu no 11 de setembro, nos ônibus da capital inglesa e nos trens espanhóis.
Hoje, no sul do Líbano, o exército israelense matou 37 crianças, 16 mulheres e três homens, no pior e mais covarde bombardeio desde que tiveram início os conflitos entre Israel e o Hezbollah, em 12 de julho. De lá para cá, aliás, cerca de 500 pessoas foram mortas - 450 eram civis libaneses. Logo, se as ações do exército de Israel são legítimas, o meu conceito de atentado terrorista não tem qualquer fundamento.

quarta-feira, julho 26

O lado bom

Fazer um caderno de turismo pela internet também tem lá as suas vantagens. Claro, não há nada melhor para a matéria do que a presença física do repórter no lugar, explorando-o, observando-o sensível e atentamente, com aqueles olhos de águia que a terra um dia há de comer.
Digo isso porque a matéria de capa do Viajar desta semana será sobre Amsterdã, cidade que serviu de palco para as gravações dos primeiros capítulos da nova novela da Globo - vale lembrar que a TV do sr. Marinho é a mãe do Diário. Como o jornal não me mandou pra lá, fui eu mergulhar na internet a fim de procurar aquilo que a "Veneza do Norte" tem de mais interessante, pra poder descrever na matéria. E como tem coisa bacana naquela lugar!
O que mais me chamou a atenção e o que me motivou a escrever estas mal traçadas foi a Casa de Anne Frank. Assim como eu, você já deve ter ouvido falar desse nome. Você, inclusive, pessoa culta e inteligente que é, ao contrário de mim, já deve até ter lido o livro/diário de Anne. Pois se você, assim como eu, apenas ouviu falar mas não sabe do que se trata, vai um resuminho da história, pesquisado durante o meu turismo virtual.
Anne Frank foi uma jovem alemã, filha de judeus, que se mudou pra Amsterdã durante a Segunda Guerra. Perseguida pelos nazistas, a família rumou à Holanda por ser este um país um pouco mais tranquilo para os padrões da época, numa Europa presa às atrocidades comandadas por Hitler. Em 1942, porém, Anne, os pais, a irmã e mais quatro empregados da família foram obrigados a se esconder no sótão da casa, num cômodo secreto, para não serem entregues aos nazistas. Permaneceram lá durante dois longos anos, sem poder sair para a rua, sem ver a luz do sol, correndo o risco de a qualquer momento serem descobertos e mandados aos cães do Führer.
Durante o período de clausura, Anne, então com 13 anos, escreveu um diário onde registrou o cotidiano no terraço, transcreveu algumas das informações que vinham de fora, numa cidade bombardeada, e falou de sua relação consigo mesma e com as pessoas ao seu redor. Em 1944 eles foram descobertos, entregues à polícia e levados ao campo de concentração de Auschwitz. Anne morreu um ano depois, vítima de tifo. Seu pai sobreviveu, e, em 1947, publicou o diário da garota, que foi traduzido para mais de 70 idiomas e é um dos livros mais lidos no mundo.
Atualmente, a casa que serviu de esconderijo para Anne, no centro de Amsterdã, virou um museu, onde estão expostos o diário original da jovem, a estante falsa que servia de passagem para o sótão e outros objetos pessoais da família.
Tá vendo como fazer caderno de turismo pela internet também é bom? Não só vou ler o livro como vou visitar a Casa de Anne Frank. Já combinei com a Mari. Vamos?

segunda-feira, julho 3

Derrotas do cotidiano

São tantas as coisas que eu poderia dizer a respeito da derrota do Brasil na Copa que eu começo a escrever este texto sem saber ao certo por qual delas começar. Poderia, como grande parte dos brasileiros e das mesas redondas, iniciar a famosa "caça às bruxas" e levar à baixo os jogadores supostamente culpados pelo fiasco.
O que eu acredito, porém, é que tudo na existência possui lados positivos, até mesmo aquelas coisas aparentemente terríveis. E lados ruins também, diga-se de passagem. O lado bom da derrota diante da França, futebolisticamente falando, é que ela nos mostrou que existem seleções melhores que a nossa e jogadores melhores que os nossos. Ou vamos continuar adotando o discurso de que seremos os melhores sempre, de que derrotas como a de ontem são meros acasos? O pior é que, mesmo depois da palestra sobre futebol ministrada pela França, muito brasileiro vai continuar achando que ainda ditamos as regras no mundo da bola...
O que deve ser dito é que nós precisamos mudar a mentalidade quando o assunto é futebol. Precisamos desfanatizar os fanáticos (eu sou um deles), ou levar um pouco mais de racionalidade a eles. Eu já ouvir dizer que, na Argentina, o mesmo bumbo que ecoa na Bombonera, estádio do Boca Juniors, casa do fanatismo, também soa na frente da Casa Rosada. Porra, o título do Brasil no mundial não iria aumentar o nosso salário, não iria fazer baixar o preço do bilhete de metrô, não iria diminuir a carga horária de quem trabalha doze horas por dia dirigindo caminhão de cana, não iria despoluir o rio Tietê, não iria prender o Marcos Valério, não iria instalar bloqueadores de celular nas penitenciárias, não iria diminuir o preço da cerveja, não iria educar aqueles que jogam lixo no chão, não iria acabar com as queimadas na Amazônia e nem evitar os congestionamentos das 8h da manhã na 23 de maio.
Seria muito bom ganhar, mas perder não é de todo ruim. Tenhamos certeza disso!









"Robinho, alguma dúvida?",
questionou o palestrante Zizu
após os 90 minutos da apresentação.

sexta-feira, junho 30

Consciência


Puts, acho que agora, ainda mais, eu passei a concordar com aquela frase que diz que "conhecer o passado é fundamental para se entender o presente". Talvez a frase não seja bem esta; acho até que não é; mas se realmente não for, ela tem este significado. Digo isso porque acabei de assistir ao quinto e último episódio do documentário "Histórias do Poder - 100 Anos de Política no Brasil", exibido pelo programa DOC Brasil, da TV Cultura.
O trabalho todo consiste no registro histórico da política brasileira, contado por meio de 70 entrevistas concedidas, basicamente, por seus mais importantes personagens nas últimas décadas. Pessoas como os presidentes José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula, seus principais ministros e secretários, o arquiteto Oscar Niemeyer, o jornalista Mino Carta, a atriz Fenanda Montenegro, dentre outros.
Diversos foram os temas que me fizeram pensar, refletir. Acho que a principal constatação, uma coisa clara, mas que muitas vezes nós não nos damos conta, é a de que as atitudes tomadas por aqueles caras que estão lá longe, em Brasília - aqueles caras que a gente só vê na tevê e nos jornais, que nos parecem tão distantes, que possuem um poder tremendo nas mãos, concedido pelo meu voto e pelo seu - afetam diretamente as nossas vidas. É um clichê, eu sei, mas é a mais pura verdade.
Gostaria de escrever um pouco daquilo que aprendi e pude concluir assistindo ao documentário. Escrever sobre a inflação (de onde veio, porque ocorre, que males ela traz, como os governos tentaram segurá-la, o preço que pagaram por isso, etc), sobre a cultura do voto nulo (a quem não interessa este tipo de manisfestação, a quase inexistência desta cultura no Brasil), sobre a dívida externa brasileira (como começou, como se agravou, suas consequências para o povo), mas já são 3h05 da madrugada e eu preciso dormir. Quem sabe não escrevo sobre tudo isto mais pra frente?
Porém, ficam aqui a sugestão do documentário "Histórias do Poder - 100 Anos de Política no Brasil" e a esperança simplistamente descrita de que todos, um dia, compreendam que somente a informação, o conhecimento histórico e a mudança de consciência poderão mudar o mundo.

quarta-feira, junho 28

Atrasado


A idéia é escrever sobre Copa do Mundo. Mas, como eu deixei pra falar sobre ela apenas agora, passado quase metade do torneio, os assuntos se acumularam e não daria pra falar sobre todos eles. O jeito é escolher um e escrever, ou tentar resumir tudo o que aconteceu até o momento. Vamos ver o que acontece!

Impressões iniciais

Os dois primeiros jogos do Brasil na Copa foram bem chatos de se assistir. Se foi chato pra nós, brasileiros, imagine pros milhões que pelo mundo acompanharam as partidas. Não que isso tenha muita importância, é só uma curiosidade. Pois bem, voltando, quais serão os motivos que tornaram estes jogos tão sonolentos?
A opinião quase que unânime é a de que o Brasil jogou mal, foi lento e ousou pouco. Concordo, mas acredito que a Croácia e a Austrália foram bem, muito bem, e conseguiram anular o Brasil em boa parte das partidas. Nos salvamos graças aos talentos individuais. Os torcedores brasileiros, mal acostumados como são, dizem que o Brasil jogou mal, e não que os outros times foram bem.
Para que jogos fossem legais de se assistir, no entanto, os dois times teriam que vir pra cima do Brasil, como numa luta franca de boxe. Mas vir pra cima significa abrir espaços, e espaços são tudo o que o jogadores brasileiros mais gostam - eles costumam ser letais quando jogam à vontade. Logo, valeria a pena para Croácia e Austrália virem pra cima, tornando o jogo legal para quem está assistindo do sofá de casa, da mesa do bar ou da redação do jornal, colocando em cheque a suas chances de vitória? Claro que não. O melhor estilo de jogo foi o adotado: aquele jogo truncado, jogado lá atrás, na defesa. Os nossos dois primeiros adversários fizeram isso muito bem e dificultaram bastante os jogos.
Veio o Japão e a história foi diferente: os comandados do galinho precisavam da vitória e vieram pra cima. O Parreira Pé-de-Uva colocou meia dúzia de reservas, que entraram babando mais que os cachorros que o Joãzinho matou de cansaço na volta de um 'passeio' à gloriosa Usina Santa Adelaide, e o jogo foi bem melhor. O Ronaldo, que não havia conseguido marcar nos dois primeiros jogos, finalmente desencantou.
Chegaram as oitavas, e o jogo contra Gana, hoje, foi atípico a ponto de quebrar em tese a minha teoria dos 'espaços no campo', levantada no quarto parágrafo. Gana veio pra cima, jogou na ofensiva, abriu espaços. O Brasil jogou atrás, na defensiva. A situação se inverteu. A minha teoria foi quebrada em partes porque o jogo não se tornou mais bonito de se ver por conta da postura ofensiva de Gana. Ela não foi quebrada por inteira porque os nossos jogadores foram letais diante dos espaços abertos pelos ganenses (ganeses?).
E o Femônimo? Agora fica a dúvida: será que ele vai continuar marcando gols, agora contra adversários bem mais tradicionais? Tomara que sim. Já os nossos lateriais, Cafu e Roberto Carlos, não estão sendo nem sombra daquilo que foram em 2002. O Cafu parece que está mais preocupado com os recordes pessoais, embora tenhamos que reconhecer que também estaríamos caso estivéssemos no lugar dele. No banco de reservas aparece o Cicinho, com olho de tigre, como o Rocky Balboa às vésperas da luta com o Apollo Creed.
O Brasil está vencendo, e isso é o que importa. Pra mim, a Copa do Mundo começou agora.

terça-feira, junho 13

De eles

Madrugada de segunda para terça-feira, véspera do primeiro jogo da seleção brasileira na Copa do Mundo da Alemanha. Entreguei meu TCC hoje depois de ter passado por um período árduo, digamos, mas de muito aprendizado. Afinal, nada acontece por acaso.
Chego de onde estava, ligo a tevê e vejo três entrevistas com três pessoas bem diferentes, em três situaçãoes dissemelhantes abordando três temas distintos: Heloísa Helena falando de política, um gringo especialista em biodiversidade ministrando palestra sobre meio ambiente e uma entrevista com o Ronaldo Fenômeno, falando de suas condições físicas.

Da Senadora Sargentão

Heloísa Helena é uma mulher que, quando mencionada, faz com que venham à cabeça das pessoas imagens de uma mulher sempre brava, briguenta, aparentemente autoritária. Excetuando-se a última característica, Heloísa, acredito, é tudo isso mesmo. Afe, uma mulher, brava daquele jeito... Uma criança que tenha passado pela TV Cultura enquanto zapeava deve ter ficado ressabiada com ela. Eu ficaria. Mas, se tivermos a oportunidade de assistir a um debate que tenha a senadora como participante, veremos que ela é muito mais do que isso.
Rodeada por jornalistas conservadores, Heloísa Helena foi duramente alvejada. No conjunto da obra, porém, saiu-se muito bem e acabou por vencer a batalha, conseguindo o respeito - se ainda não tinha - destes mesmos jornalistas, às vezes de maneira inconsciente para alguns deles. Até porque o discurso pregado por ela é o discurso perfeito, que deixaria em maus lençóis qualquer pessoa que emitisse opinião contrária, e que, se colocado em prática, poria em risco a vida daqueles que se beneficiam da pobreza.
Já cheguei a achá-la oportunista pelas duras críticas que frequentemente faz ao presidente. Mas, tendo a oportunidade de ouvi-la por mais tempo, passei a ver que ela é um bom caminho. Basta que tenhamos coragem de arriscar.

Do Gringo "Biodiversidadecista"

O gringo começou a falar de biodiversidade logo após o término da entrevista com a senadora. Foi durante um palestra gravada, transmitida pela Cultura. As informações passadas por ele eram tão valiosas e suas colocações tão brilhantes que eu fui obrigado a não preparar o meu santo lanchinho de cada dia. Ou melhor, de cada noite. E olha que isso é difícil, viu?
Dentre outras coisas, o gringo disse que nós, vertebrados, somos apenas uma ínfima parcela dos seres vivos do planeta. Somos quase nada quando comparados, por exemplo, às milhões de espécies de microorganismos existentes, muitas delas originadas simultaneamente à gênese do planeta. Microorganismos tão desprezados por nós e tão importantes pra gente. Pra gente, isso mesmo! Afinal, nós vivemos em meio a um ecossistema, e esses microorganismos contribuem para a vida das plantas, seus habitats naturais, que fazem parte do mesmo ecossistema. Plantas que juntas formam florestas. Florestas que emanam ar puro para todo o globo. Ar puro que é essencial para a sobrevivência humana. Humanos que poluimos o ar e destruímos florestas, acabando com o ar puro, com as plantas, com os microorganismos e, num futuro não tão distante, com os próprios humanos.

Do Fenômeno

O Ronaldo Fenômeno é habilidoso tanto dentro quanto fora de campo, e isso é indiscutível. Ele parte pra cima dos adversários com a mesma eficiência com que contra-ataca uma afirmação do Presidente da República. As duas últimas polêmicas envolvendo o jogador dizem respeito às bolhas nos pés e à constante briga com a balança.
Na Copa de 2002, depois de quase dois anos de uma heróica recuperação, Ronaldo voltou a disputar uma Copa do Mundo. Arrebentou. Mas, nos dias que antecederam o antepenúltimo jogo da seleção naquela Copa, começaram a crescer os rumores de que sua contusão, aquela mesma que o havia tirado dos gramados por tanto tempo, o estaria incomodando novamente e ameaçando sua participação no restante da competição. O que fez ele? Cortou o cabelo no melhor estilo Cascão e mudou completamente o foco das atenções. Passou-se a falar apenas do cabelo. A contusão? Essa ficou pra trás.
Em 2006, Ronaldo apresenta-se visivelmente "mais forte" que os demais jogadores, o que ficou claro nos dois últimos amistosos da seleção. Hoje, durante entrevista à Cristiane Pelajo, o Fenômeno pela primeira vez admitiu que não está na sua melhor forma, que está fazendo treinamentos especiais para atingi-la e que não aguentaria jogar os noventa minutos de uma partida. Humm. No jogo contra a Nova Zelândia, ele saiu no final do primeiro tempo alegando estar com terríveis bolhas nos pés. E passou-se a falar apenas das bolhas. A forma física? Essa ninguém fala mais.
Mas Ronaldo é Ronaldo, e o cara é especialista em Copa do Mundo. Que a forma física e as bolhas não o atrapalhem logo mais no jogo de estréia!

sábado, junho 3

A utopia de X-men 3


Mais do que um puta filme de ação, do que uma épica luta entre o "bem" e o "mal" ou, ainda, do que uma tradicional história de amor, X-men 3 é um filme que faz uma grande analogia quanto à geopolítica atual, no que diz respeito aos conflitos militares e ideológicos entre ocidentais e muçulmanos. A tolerância entre os diferentes povos, sua principal mensagem, soa utópica neste mundo cada vez mais contaminado pela ignorância e pela busca do poder.
De um lado, os homens, os "homo sapiens", os americanos, que fazem o papel dos ocidentais. De outro, os mutantes, os muçulmanos, liderados por Magneto, o Osama Bin Laden. A intolerância dos americanos em relação aos mutantes, os diferentes, e o ideal estadunidense de padronização mundial, um padrão baseado na cultura americana, são tamanhos que o governo americano desenvolve um antídoto capaz de curar os mutantes desta "doença" e transformá-los em homo sapiens. Desta forma, estariam eliminadas as diferenças entre as duas raças.
No mundo real, o antídoto estatudidense nada mais é do que o "American Way of Life", a disseminação mundial da cultura americana, da música americana, do cinema americano (o vazio), do fast-food americano, das roupas americanas, do comportamento americano.
Magneto, que passa a imagem de símbolo da resistência mutante, vê na criação deste antídoto uma forma de barganhar cada vez mais "peões" para o seu exército. Um de seus maiores seguidores não à toa recebeu o nome de "Fanático", um mutante extremamente vigoroso fisicamente, mas dotado de um cérebro pouco pensante. Osama Bin Laden, que passa a imagem de símbolo da resistência muçulmana, vê na imposição do American Way of Life uma forma de barganhar cada vez mais peões para seu exército.
Na verdade, o que querem tanto Magneto e os homo sapiens no filme quanto Osama Bin Laden e os americanos na vida real é impor cada um o seu modo de vida, tomando para si o controle do poder. No filme, o meio termo entre os homo sapiens e os mutantes liderados por Magneto é a escola do Professor Xavier, que trabalha para uma convivência harmônica entre mutantes e homo sapiens. O Professor Xavier, aliás, é mais um herói que morreu (será?) sem ter visto o sonho realizado - uma sacada explícita.
Ingênuos aqueles que, a esta altura do campeonato, ainda não se aperceberam quanto ao ideal estadunidense de padronização, executado por meio do American Way of Life. Inocentes aqueles que pensam que Osama Bin Laden e sua Al Qaeda realmente lutam por um ideal muçulmano.
Falta-nos no mundo uma escola como a do Professor Xavier.

domingo, maio 21

O colombiano

A aparência é de uns 60 anos, embora ele não deva ter mais do que 50. Magro, cabelo bagunçado, desdentado, camiseta desbeiçada. Ele nos abordou no aeroporto de Campo Grande perguntando, num espanhol de difícil compreensão, se iríamos à Corumbá. Sim, íriamos, até sabermos que por conta do mau tempo o vôo estava cancelado. Um ônibus nos levaria à "Capital do Pantanal" em uma viagem de aproximadamente seis horas.
O ônibus chegara. Entramos, e as duas jornalistas que estavam comigo logo se acomodaram numa dupla de poltronas. Continuei pelo corredor e me deparei com ele, gesticulando, me convidando a seguir viagem ao seu lado. Antônio, colombiano de Bogotá, é artista plástico e estava indo ao Festival América do Sul para expôr seus trabahos, os mesmos apresentados por ele na Venezuela ao longo de todo o mês de abril. Ele havia pego um avião na capital colombiana, feito uma escala no Panamá e chegado em Cumbica por volta das 4 da manhã, sendo que o vôo para a capital sul-matogrossense estava marcado para pouco depois das 3 da tarde.
Me disse que ficou impressionado com o nascer do sol em São Paulo. A lua descendo, o sol subindo, o friozinho do fim da madrugada. "Uma grande experiência". Vejam só! Segundo ele, o sol na Colômbia é forte o ano todo devido à linha do Equador. Logo, ele desconhecia "o nascer do sol do outono".
Outro fator que chamou a atenção do colombiano, ainda no aerporto de Guarulhos, foi a imensa propaganda da Petrobrás exibindo o logo da auto-suficiência. "Ohhh! Muito bom para o Brasil. A Colômbia já teve muito petróleo no passado, mas as empresas estrangeiras acabaram com ele", me disse. Também por isso ele apóia a nacionalização do gás e do petróleo na Bolívia. "Evo nacionalizou as reservas, não desapropriou a infra-estrutura. Ele é sagaz, mais inteligente do que muita gente pensa. Pela primeira vez a Bolívia tem um indígena no poder".
O ônibus começou a andar e o ar condicionado foi ativado. Eu só de camiseta. Antônio tirou uma malha de sua pequena bolsa - o mesmo lugar onde guardava também toda a quantia de dinheiro que havia trazido para a temporada de sete dias no Brasil, R$ 20 - e me ofereceu.
Ao longo da viagem ele perguntou se eu conhecia o Rio de Janeiro, que ele achava "muy bonito". Eu disse que não. Perguntou se eu conhecia a Amazônia. Eu disse que não. Foz do Iguaçu. Eu disse que não. Ele me disse que, se caso ganhasse algum dinheiro ao longo do festival, iria às cataratas.
Antônio Caro, artista plástico, ministrante de uma oficina de criatividade visual no Festival América do Sul, "el maestro colombiano", como definiu um site venezuelano.

quarta-feira, março 29

Enquanto isso no Brasil...*

Trinta anos depois do golpe militar que vitimou mais de 30 mil pessoas - mortas ou desaparecidas - em apenas sete anos, o governo argentino anunciou que vai tornar público os arquivos secretos da ditadura militar, amargada pelo país entre 1976 e 1983. O objetivo, nas palavras da ministra da defesa argentina, é "garantir o acesso irrestrito à informação sobre os fatos gravíssimos ocorridos em nosso país durante a última ditadura militar".
No Brasil, grande parte dos arquivos da ditadura permanecem às escuras. Em dezembro de 2002, no final de seu mandato, o então presidente Fernando Henrique Cardoso criou um decreto classificando os documentos de quatro formas: "ultra-secretos" (que permaneceriam em segredo por mais 50 anos com possibilidade de renovação indefinida, o "sigilo eterno"), "secreto" (sigilo de 30 anos) "confidencial" (20 anos) e "reservado" (10 anos).
A única medida praticada pelo atual gestão em relação ao decreto de FHC foi a criação de uma nova determinação, que alterou o prazo de sigilo dos arquivos: os "ultra-secretos" passaram a ter tempo determinado de 30 anos, prerrogáveis por mais 30, e os "secretos" 25 anos, renováveis por outros 50.
Pelo andar da carroagem, muitos dos militares que lideraram e conduziram o golpe em 1964 continuarão por aí, recebendo aposentadorias recheadas, comandando ações inconstitucionais nos morros cariocas, fazendo tratos dos mais variados com os traficantes, ganhando dinheiro com eles e pressionando o omisso governo para que o sigilo jamais seja quebrado.
* Idéia do Jogo Aberto.



















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quinta-feira, março 23

Vou-me embora

O Zé Colméia é um cidadão que eu conheci hoje, na fila pra comprar o ingresso pro show do Jack Johnson. Sim, eu consegui comprar o ingresso! Tudo bem que as meias entradas estavam esgotadas e eu acabei pagando os olhos da cara pela inteira, mas beleza, o contexto do show vai valer a pena.
Pois então, voltando a falar do figura. Estava eu na loja esperando na fila quando vi umas camisetas à venda, colocadas ao meu lado. Bem bacanas, por sinal. Puxei a etiqueta de uma delas e me abismei: R$ 228. Peguei uma outra e... R$ 200. "Cacete, duzentos conto. Que beleza!", pensei alto. Foi quando um cidadão de cabelos cacheados encobrindo as orelhas e chapeuzinho estilo Indiana Jones se virou para mim e disse, com um certo sotaque:
- Você vê, rapaz, que coisa, não?
- Que maravilha, e tem nego que compra - eu retruquei.
- O ingresso também não está dos mais baratos.
- Não vou te mentir não, tá sargadinho.
E nisso o papo foi indo. Falamos do Jack Johnson, da chuva, que estava desabando e congestinando São Paulo naquele momento, e de mais alguns desses assuntos corriqueiros que costumamos falar com as pessoas que conhecemos em filas, sabe?
- E esse sotaque, de onde vem? - perguntei.
- Sou da Pasárgada, conhece?
- Não, mas já ouvi falar. Você conhece o rei de lá?
- Sim, lá sou amigo do rei e tenho a mulher que eu quero. E digo mais: na cama que eu escolho.
- Massa, hein?
Eu nunca tinha conhecido um cara da Pasárgada. Lembro de ter estudado sobre o lugar na minha infância, e até me lembrava de alguns detalhes.
- É verdade que lá têm prostitutas bonitas?
- Sim, e pra gente namorar. Em Pasárgada tem tudo, é outra civilização. Tem um processo seguro de impedir a concepção. Tem telefone automático e tem alcalóide à vontade.
Xiiii, a conversa começava a ficar complexa. Processo de impedir concepção, alcalóide. Que diabos seria um alcalóide? Tive vontade de perguntar, mas o Zé falava da terra dele com tanta empolgação que eu nem quis interrompê-lo. Não aguentei.
- Oh louco, mas por que você saiu de um lugar fera como esse e veio pra São Paulo?
- Vim porque eu queria conhecer de perto essa tal de civilização. Lá na Pasárgada, os jovens estão vindo bastante para a chamada civilização.
- Hum, interessante. Mas e aí, o que você tá achando?
É óbvio que nesta altura da conversa os nossos ingressos já estavam comprados e bem guardados. O papo, bem interessante, afinal, não é sempre que a gente tem a oportunidade de conhecer pessoas de um lugar tão aguçante quanto a Pasárgada.
- Eu to achando bem bacana. É sempre bom conhecer novos lugares, novos povos, novos costumes. Tem muita coisa legal, mas tem muita, muita coisa ruim e injusta na civilização.
A conversa começava a ficar intrigante, e eu cada vez mais curioso. O que será que o Zé Colméia achava ruim e injusto? Eu sei que existe muita ruindade e injustiça por aqui, mas qual seria a visão de um pasargadense?
- Ah, não me leve a mal, meu caro Alex, mas as pessoas aqui são muito prepotentes, têm pouca educação. Não respeitam os semelhantes, tampouco o meio ambiente. Os civilizados são arrogantes ao ponto de se acharem superiores aos animais. Falam que os animais são irracionais, "burros", mas que tipo de racionalidade é essa que é capaz de derrubar florestas inteiras a troco daquilo que vocês chamam de dinheiro? Será que o dinheiro vai poder comprar ar puro quando ele não existir mais? Será que o dinheiro vai poder comprar espécies de animais quando elas só existirem nos casacos das mulheres ricas?
Era verdade, e eu nunca tinha parado pra pensar. Aliás, vocês já repaparam que se tornou habitual ouvirmos na tevê que uma área de floresta equivalente a não sei quantos campos de futebol foi destruída por uma queimada? E a gente nem liga mais. Esses dias li em algum lugar um trecho de uma música do Manu Chao que dizia: "É sempre mais fácil empurrar com a barriga e deixar o abacaxi para os netos. Mas enquanto o mundo continua parolando, o termômetro e a água vão subindo".
- Na Pasárgada eu ando de bicicleta, monto em burro brabo e, de quebra, quando estou cansado, deito no rio e ouço histórias da mãe-d'água.
- Caramba, Zé. Pelo jeito você nunca fica triste lá...
- Fico, mas quando fico triste de não ter jeito, quando tenho vontade de me matar, eu lembro que sou amigo do rei e que tenho a mulher que eu quero. E o melhor: na cama que eu escolho.
Iremos juntos ao show do Jack Johnson. Eu com a Mari e ele com a ursa.

sexta-feira, março 10

Os militares estão do nosso lado


Um dos assuntos do momento no Brasil é a ação nos morros cariocas promovida pelo exército, que teve dez fuzis e uma pistola roubados por traficantes há alguns dias. Tiroteios, pessoas chorando, moradores mortos, as imagens não são novas. A novidade, agora, tem relação com a ocupação do exército nas favelas. Estariam ocorrendo arbitrariedades? Poderiam os militares revistar e interrogar pessoas, atribuições das polícias civil e militar, e, mais ainda, invadir casas desprovidos de mandados judiciais? Por conta destas ações, o Ministério Público Federal entrou com ação para que a justiça suspenda as operações.
A polêmica é tamanha que o portal Terra abriu um espaço em seu site para que os internautas coloquem ali suas opiniões a respeito do assunto. Li aproximamente 20 postagens, todas fervorosamente favoráveis à ocupação do exército. As argumentações são basicamente duas: se a polícia não consegue eliminar o tráfico, que o exército o faça, e continuem com as ocupações. Os procuradores da República que entraram com a ação na justiça têm ligação com os traficantes, dizem alguns. Vai saber.
O fato é que o exército está violando a lei, e se a lei não está sendo obedecida, algo tem que ser feito. Ou continuaremos vivendo em um país onde os dominantes deitam e rolam sem qualquer pudor. É inocência pensar que os militares estão nas favelas para combater o tráfico. Arrogantes como são, eles querem dar uma lição aos meros mortais que ousaram roubar algo de seu patrimônio. Em nenhum momento eles estão pensando em eliminar os traficantes para melhorar a vida da população. Esses militares são aqueles mesmos que, na década de 60, golpearam o Estado e proclamaram a ditadura, período marcado por torturas, mortes, perseguições e censura.
Perguntei para um colega jornalista do Diário, carioca, o que ele achava de tudo isso. A opinião dele é bem parecida com a minha: a luta contra o tráfico, aquilo que a população ingenuinamente acha que o exército está fazendo, começará a ser vencida quando a comercialização das drogas for legalizada. O uso de entorpecentes só cresce ao redor do mundo. Logo, a batalha contra o tráfico é infindável. Como bem disse o meu colega, o consumo irrestrito só será vencido por meio da informação, e não através de tiros, gritos, força e ocupações ilegais. As drogas mais consumidas no mundo, anfetamina e álcool, estão aí, nas farmácias, bares, supermercados. Estão em cada esquina.

quarta-feira, março 1

Vem de outros carnavais

Eu nunca fui muito fã de carnaval. Na verdade, até este ano, o carnaval era esperado por mim apenas por ser esta uma data em que todos os meus amigos se dispõem a viajar - coisa difícil de acontecer pro pessoal lá de Dois Córregos. Apenas agora, em 2006, é que eu fui me atentar um pouco mais quanto aos diversos carnavais que ocorrem pelo Brasil. Como tive que trabalhar, vi bastante coisa pela tevê e li alguma coisa nos jornais. Mas o que me levou a escrever este texto foram algumas reflexões, nem tão refletidas assim, a respeito dos carnavais de avenida do Rio e de São Paulo.
Posso estar falando besteira e aqueles que gostam dos carnavais no Sambódromo do Anhembi podem querer me bater, mas eu acho o carnaval de São Paulo muito sem graça. Na minha opinião, carnaval de avenida não combina com o paulistano, não combina com o clima hostil da cidade. A cidade que, aliás, fica vazia. O rio Tietê ali do lado também mata.
Já o carnaval da Sapucaí tem muito mais energia, vibração. Carnaval tem tudo a ver com carioca. Ao contrário das escolas de samba de São Paulo, as cariocas têm muito mais tradição. Salgueiro, Mangueira, Mocidade têm muito mais peso que Vai-Vai, Gaviões da Fiel e Rosas de Ouro. O sambódromo carioca tem muito mais energia, gente e alegria. Os puxadores das escolas têm um timbre muito mais forte, são muito mais cativantes e contagiantes.
Neste quesito, São Paulo perde feio.

terça-feira, fevereiro 21

Impressões

Eles mataram um urso polar em plena floresta tropical; o caixão em que estava o pai do Jack foi encontrado aberto, vazio, e, alguns dias antes, o cara teve várias visões do velho, até então morto; a bússola não funciona corretamente; o sol não nasce nem se põe na direção em que deveria se levantar e se deitar.
Uma situação que eu acho muito louca no Lost, e que pra mim soa até como charada, é que as pessoas não morrem naquela ilha. Quer dizer, o policial que veio algemado com a "sardenta" morreu, foi enterrado e até exumado. Mas reparem: o hobbit foi encontrado enforcado, amarrado há alguns metros do chão, todo roxo, e sobreviveu. A loirinha apareceu esfacelada nas pedras, sangrando horrores, mas não morreu.
Mais: nos primeiros capítulos, o Locke "achou" o cachorro labrador do negrinho. Alguns episódios depois, "achou" o violão do hobbit, e disse algo do tipo: "quando a gente quer muito uma coisa, ela aparece".
E a bússola quebrada, lembram? Era do Locke, que a deu pro iraquiano. Será que ele fez isso por acaso? "Ele (Sayid) é inteligente, não o faça inimigo. Ele pode nos ajudar bastante, se vier pro nosso lado", mais ou menos isso, o Locke disse pro "irmão" da loirinha. Esse garoto, aliás, foi deixado pelo Locke amarrado, sozinho, entregue aos "seres" da ilha. O velho disse que o cara ainda o agradeceria por isso.
Depois de ter conseguido se desamarrar, de ter visto o "ser" e de ter encontrado a irmã morta, o rapaz parte pra cima do Locke, que o faz refletir e perceber que ele estava "aliviado", livre dos sentimentos que tanto o faziam sofrer. Ele agradece.
Em uma das últimas cenas do episódio de segunda-feira, dia 20, enquanto o Locke e o "irmão" da loirinha, já liberto, voltam para a floresta, a câmera vai para o iraquiano e a lorinha, que conversavam algo sobre água e comida. É legal pensar no porquê das cenas.
Agora, ficam as incógnitas: quem era o Ethan, o que aconteceu com a grávida, qual a história da francesa, o que é aquela fuselagem descoberta pelo Locke e pelo "irmão" da loirinha e o qual o significado do ser que perseguiu o casal de "irmãos".
Pouco a pouco, a cada pequeno detalhe, elas vão sendo reveladas.
Massa!

Ah, ia me esquecendo: antes da queda do avião, o Locke era paralítico...................